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À CONVERSA COM..

Luísa Lamela - Professora na Antiga Escola do Magistério Primário de Braga

Entrevista realizada no âmbito das Comemorações do Dia do Instituto de Educação da UMinho  | 10 dezembro 2012

Maria Luísa Beirão Faria Lamela Gomes dos Santos nasceu em Esposende em 1948. Realizou o curso de professora do ensino primário na Escola do Magistério Primário entre 1964 e 1966, onde, para além de aluna, foi dirigente do jornal “Escola Remoçada”. No ano seguinte lecionou uma classe do 4ºano, em Esposende, tendo, de imediato, ingressado na Escola do Magistério de Braga como professora de Metodologias. Já em plena atividade profissional, realizou a Licenciatura em Humanidades e Filosofia, na Universidade Católica de Braga. Entre 1972 e 1974, num período em que acompanhou o marido durante o serviço militar em Cabo, esteve na criação da Escola do Magistério Primário nessa colónia de então. Regressada ao Continente, continuou a sua atividade profissional no Magistério, até ao fim do seu funcionamento, tendo depois passado para o CIFOP de onde, ao fim de quatro anos, entrou na aposentação. Terminada a atividade profissional, continuou o seu forte envolvimento na formação contínua de professores
.


Entrevista realizada a 07 de dezembro de 2012 pela Vice-Presidente do Instituto de Educação, Profª Doutora Maria Teresa Sarmento, à Professora Luísa Lamela, no âmbito das Comemorações do Dia do IE. Depoimento histórico de uma professora do Antigo Magistério Primário de Braga.


Ingressou para o Magistério com 16 anos. Formou-se professora muito nova!?
Sim, mas tive de esperar um ano até poder lá entrar, porque apenas tinha 15 anos quando terminei o 5º ano, correspondente ao 9ºano atual, só era possível entrar na Escola do Magistério com 16 anos, e durante este período de espera, dei explicações de Matemática e Físico-química a amigos e familiares. É uma história muito bonita. Na minha família somos 5 irmãs e um irmão.

As minhas irmãs mais velhas são todas professoras primárias (do 1ºciclo), todas fizeram o Magistério Primário em Braga, no tempo do Dr. Pelayo.
Ser professor primário nos anos sessenta era uma boa profissão, era bom para as meninas. Era um curso rápido, na nossa família éramos muitos filhos apesar do nosso pai ter um emprego estável e bem remunerado. Mas quando chegou a minha vez de terminar o 5º ano do liceu, que corresponde hoje ao 9º ano, eu sentia que não queria ir para a Escola do Magistério Primário.



Panorâmica atual do Edifício dos Congregados onde outrora funcionou a Escola do Magistério Primário de Braga

A decisão de ir para a Escola do Magistério Primário tinha por objetivo poupar algum dinheiro?
Sim, também por razões económicas. As minhas irmãs já trabalhavam e recebiam a sua remuneração. Naquela época a minha ambição e o meu pensamento era tirar um curso de engenharia ou eletrónica, mas isso implicava estudar mais tempo que as minhas irmãs e necessariamente mais gastos. A minha decisão teve em consideração este aspeto, foi uma questão de bom senso. Entretanto o falecimento do meu Pai, a conjuntura económica e social impelem muito a minha decisão e vocação de ir para a Escola do Magistério Primário. No ano de 1964 entrei na Escola do Magistério Primário de Braga. Hoje estou perfeitamente convencida que tomei a decisão certa porque gostei muito do Curso, da Escola, dos colegas e funcionários. Foi uma descoberta.

O que lhe estimulou mais a atenção durante o Curso?
Eu penso que a área das Ciências da Educação (CE) são imperiosamente motivadoras para toda a gente. É impossível não se ser ávido de saber um pouco sobre CE, porque todas as pessoas têm familiares ou vizinhos interessados e motivados para a área das CE. Por exemplo, a área de informática motiva todas as pessoas? Não. As artes motivam todas as pessoas? Não. Agora falemos de educação. Existe algum cidadão que não tenha algumas noções e não queira ter outras tantas sobre Educação!? Gostei muito de frequentar o Magistério. Gostei muito da Professora Helena Maria que lecionava a área de Psicologia.

Nesta época dos anos sessenta, a Professora Helena Maria seria a única mulher na Escola do Magistério Primário?
Não, já lá estava a Zizina, minha professora de Didáticas Especificas. A didática A da parte das letras e leituras e a didática B das Matemáticas. O Diretor da Escola durante muitos anos e na altura era o Dr. Pelayo. Era um Diretor emblemático que deixou a direção depois do 25 de abril.

O Dr. Pelayo era uma personalidade que não reunia consenso e opiniões favoráveis. Digamos que em 100 alunos, 99 não apoiavam a sua forma de gerir o Magistério.
Mas devo ser parte daquela percentagem mínima que, apesar das divergências, o conseguia admirar. O Dr. Pelayo era um homem sábio, dedicado a uma causa – colocar o Magistério de Braga no lugar mais alto da Educação em Portugal. Na época a Escola tinha um enorme prestigio, tínhamos uma publicação quinzenal, “A Escola Remoçada”. O Dr. Pelayo fazia a seleção dos redatores a partir do 1º ano, era responsável pela disciplina de Pedagogia, baseada nos fundamentos de Maria Montessori, e escolhia os melhores alunos como redatores para escrever sobre várias secções do jornal.

Existia ainda um diretor e um editor do jornal. Eu fui redatora da “Escola Remoçada”, tinha alguma habilidade para escrever. Estar na redação do jornal que se situava num gabinete de reduzidas dimensões, mesmo ao lado do gabinete do Dr. Pelayo era estar permanentemente a aprender sobre pormenores e assuntos que jamais esquecerei.

Em que anos frequentou a Escola do Magistério Primário?
Eu frequentei o Curso de 1964 a 1966. Quando terminei o curso o Dr. Pelayo convidou-me para dar aulas no Magistério e fazer parceria com a Helena Maria. Naquele ano havia mais turmas e mais alunos e a escolha dos professores era feita por nomeação e não por concurso. Eu estava a residir em Esposende, onde dei aulas a grupos de crianças do 4º ano na localidade de Fão durante um ano. Gostei muito! Uma ocasião a Escola teve a visita de um Inspetor, que fez algumas perguntas aos alunos que lhe responderam muito bem. A certa altura um aluno resolveu perguntar ao Inspetor o que eram “coutos e honras”. O inspetor não respondeu a esta e outras perguntas. Comecei a dar aulas no Magistério praticamente com a mesma idade dos meus alunos e sem ter ainda a licenciatura que haveria de obter mais tarde, em Filosofia e Humanidades.

Como foi passar de Aluna a Professora?
Enquanto Professora sentia uma grande força que não sentia como aluna. Por exemplo na interação com o Dr. Pelayo. Houve assim uma oportunidade para lhe falar sobre certos assuntos que como aluna era impensável abordar. Mas existia um potencial de afeto e de respeito entre o Dr. Pelayo e eu, que me permitia discutir as injustiças na atribuição das notas. Dizia-lhe que tinha aceitado a responsabilidade de ser Professora não somente para ensinar mas também para avaliar. 

A referência nas médias entre as Escolas de todos os Magistérios do país, era de 13,5. O objetivo era atingir notas superiores a 11 valores e inferiores a 17 valores.
Não tenho dúvidas que a personalidade mais marcante do Magistério Primário de Braga foi o Dr. Pelayo, figura impressionante, sem nenhuma forma conhecida de distração, não permitia que as alunas da Escola namorassem.
Uma ocasião o Dr. Pelayo propôs atribuírem-me um 18. Foi partilhada informação sobre o meu trabalho e perfil psicológico com as outras Escolas do Magistério para a decisão unânime na atribuição da classificação de 18 valores.


Nesse ano de 1966 as notas demoraram bastante tempo a sair porque não era permitido atribuir esta nota de 18 valores. Finalmente, a decisão: foi decidido não atribuir a nota por falta de consenso. Na minha opinião houve falta de firmeza do Magistério de Braga em afirmar e defender a sua posição perante os seus pares. O Dr. Pelayo era realmente uma pessoa muito culta, ou se amava, ou se odiava. Lembro-me de lhe dizer que ía casar e a atitude dele foi de completo desacordo, como se a decisão de casar fosse incompatível com a arte de ensinar, ler ou pensar. Quando casei fui dar aulas para Cabo Verde, acompanhando o meu marido no cumprimento do Serviço Militar. Na ilha fundei a primeira Escola do Ensino Primário.
A partir do 25 de abril senti efetivamente o que era ser Professora.


Aspeto atual do pátio interior da Escola com o pormenor do jardim e do chafariz

Porque sente esta diferença, antes e depois do 25 de abril?
Quando me casei tinha 21 anos e fui para Cabo Verde. Entretanto, regresso em 1974, obtenho a licenciatura e volto para o Magistério. O Dr. Pelayo já não é o diretor mas sim o Professor Agostinho Silva que havia sido o diretor da Escola Comercial Carlos Amarante. O período seguinte é bastante conturbado em todas as Escolas do Magistério, com os alunos permanentemente em reuniões gerais (RGA´s). 

Nos anos de 1975-76 os Professores iniciaram processos de reciclagem da sua formação dando-se início à formação conjunta de Professores e Educadores.
Eu gostei muito de dar aulas no Magistério a partir do momento em que o Arquiteto Manuel dos Santos foi por todos os membros da escola eleito diretor do Magistério Primário de Braga. De referir a excelência das instalações que tínhamos no Magistério, com registo para a existência de salas de desenho, de expressão, de música, etc e com muito e diversificado material de apoio. Diziam que era a melhor Escola do país em espaço e materiais pedagógicos.

A partir de 1975 a Escola do Magistério foi a Escola da minha vida, era uma família. Houve uma remodelação dos programas e dos currículos. A minha disciplina era transversal ao currículo e extremamente interessante.

Em que sentido foi importante este período histórico? Na relação com os alunos, nas relações entre os colegas, nas possibilidades de participação?
Os alunos saiam da Escola muito bem preparados. Os anos que antecederam o CIFOP, a partir de 1976 até terminar a Escola do Magistério, foi uma época de elevada preparação dos alunos. Havia aulas acompanhadas com seminários e uma grande proximidade entre professores e alunos.

E a relação com o Arquiteto Manuel dos Santos? Permitia a participação?
O Arquiteto Manuel dos Santos era intransigente nos assuntos que se relacionavam com as médias. Mas era um Senhor, com uma excelente aparência, muito formal e muito delicado na aplicação da assertividade. Ostentava menos a sua sabedoria, comparativamente ao Dr. Pelayo, era, no entanto, mais sereno e cavalheiresco. “Esta Escola era a menina dos meus olhos."

Permaneceu muito tempo no Magistério sob a gestão de dois diretores diferentes. Considerando a distância temporal até hoje, nota que houve diferenças no funcionamento da Escola em função do líder?
Sim. O Dr. Pelayo era um diretor temido, receado, que nos intimidava muito. Lembro que na Escola ainda existe uma escada bifurcada. Os rapazes utilizavam, por exemplo, o lado direito das escadas e as meninas o lado esquerdo para não se encontrarem. Ninguém ousava transgredir esta regra.

Lembro-me de uma passagem vivenciada em 1966 numa escola que acompanhávamos..
O Dr. Pelayo entendeu que a aula dos sólidos geométricos deveria ser apresentada através de um processo completamente ativo e participado, ou seja, os alunos deviam tocar e sentir os objetos e as suas respetivas formas. Recordo que o ensino nesta altura era genericamente livresco, expositivo e especulativo.

O Dr. Pelayo considerava que os sólidos não eram só para serem observados mas acima de tudo, tocados e manuseados pelas crianças. Era um ótimo pedagogo.

No percurso da sua carreira como Professora teve alunos marcantes ou brilhantes?
Sim, tive alunos brilhantes. Tenho ainda alguns alunos que estão atualmente nas Escolas. Os inspetores vão lá e perguntam se foram meus alunos. Valorizo muito a transmissão de valores no ensino, o respeito e a dignidade de cada um diferente do outro ser. Em Cabo Verde tive uma aluna distinta e em Braga confirmo duas alunas brilhantes. Quem se propõe ser Professora de Crianças deve revelar um leque de competências distinto. Não pode ser subvalorizada a aptidão para cantar, para dançar, para o teatro, etc. Reunir este leque de valências, distingue os Professores. Não importa apenas ser muito inteligente mas ter um equilíbrio mental elevado, distinto.




 
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